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Por Luís Gustavo. Veja como pesquisamos e revisamos nosso conteúdo.
No fim de agosto de 2026, uma pesquisa preliminar chamou atenção de quem estuda sono e também de quem simplesmente toma um comprimido de melatonina antes de dormir há anos: pessoas com insônia crônica que usavam melatonina de forma prolongada apresentaram um risco cerca de 90% maior de desenvolver insuficiência cardíaca ao longo de cinco anos de acompanhamento, comparadas a quem tinha insônia mas não usava o suplemento por longo prazo. É um número que assusta à primeira leitura — e melatonina virou, nos últimos anos, um dos suplementos mais comprados do mundo, tomado por gente que nem sequer tem diagnóstico formal de insônia, apenas o hábito de recorrer a ele sempre que uma noite promete ser difícil. É exatamente por isso que vale a pena entender com calma o que esse número significa, o que ele não prova, e o que fazer com essa informação sem entrar em pânico nem ignorá-la.
O que o estudo de 2026 realmente mediu: os números por trás do 90%
O desenho do estudo comparou dois grupos de pessoas que já tinham insônia crônica diagnosticada: as que usavam melatonina de forma contínua, noite após noite, por um período prolongado, e as que não usavam o suplemento dessa forma. Ao longo de cinco anos de acompanhamento, o grupo de uso prolongado registrou uma incidência de insuficiência cardíaca aproximadamente 90% maior. Esse tipo de desenho — observacional, acompanhando pessoas ao longo do tempo sem controlar quem toma o quê, como se faria em um experimento de laboratório — é chamado de estudo de coorte, e é uma ferramenta valiosa em pesquisa médica, mas tem limites importantes que precisam entrar na conta antes de qualquer conclusão apressada. Os detalhes completos da metodologia, incluindo o tamanho exato da amostra e a revisão por pares completa, ainda estavam sendo divulgados no momento em que o achado ganhou repercussão, o que é comum em pesquisas recém-anunciadas. Os próprios pesquisadores responsáveis pelo achado classificaram o resultado como preliminar e pediram mais estudos para confirmar e entender melhor a relação, o que já é um sinal de que essa não é uma conclusão fechada — é o início de uma linha de investigação, não o fim dela.
Associação não é causa: o que essa distinção significa na prática
Essa é provavelmente a parte mais importante do artigo inteiro, então vale se demorar nela. Quando um estudo observacional encontra uma associação — como “quem usa X tem mais chance de Y” — isso significa que as duas coisas aparecem juntas com mais frequência do que o esperado ao acaso. Isso é diferente de provar que uma causa a outra. Um exemplo clássico usado para ensinar essa diferença: cidades onde mais sorvete é vendido também registram mais afogamentos no mesmo período, mas ninguém diria que sorvete causa afogamento — o fator real por trás dos dois é o calor do verão, que aumenta tanto o consumo de sorvete quanto a ida às praias e piscinas. Para chegar a uma relação de causa e efeito com segurança, a ciência geralmente precisa de estudos randomizados controlados, nos quais pessoas parecidas são divididas aleatoriamente entre tomar ou não tomar a substância, eliminando boa parte das variáveis que poderiam confundir o resultado. Esse tipo de estudo com melatonina e insuficiência cardíaca simplesmente ainda não existe em escala suficiente. Isso não quer dizer que a associação seja irrelevante — é um sinal real que merece investigação séria — mas afirmar que “melatonina causa insuficiência cardíaca” vai além do que os dados atuais permitem dizer, e é exatamente esse tipo de exagero que bons veículos de ciência evitam.
O fator de confusão óbvio: quem tem insônia crônica já começa em desvantagem cardíaca
Existe uma explicação alternativa plausível que qualquer bom estudo precisa tentar descartar: pessoas com insônia crônica, como grupo, já carregam fatores de risco cardiovascular mais altos antes mesmo de qualquer suplemento entrar em cena. Sono ruim e prolongado está associado, de forma bem documentada, a pressão arterial mais alta, inflamação sistêmica elevada, resistência à insulina e maior estresse no sistema nervoso autônomo — todos fatores que, isoladamente, já pesam contra a saúde do coração. Isso é o que pesquisadores chamam de “fator de confusão”: é possível que parte (ou até boa parte) do risco maior observado no grupo que usava melatonina venha, na verdade, da gravidade da própria insônia crônica desses pacientes, e não da substância em si. Existe ainda uma segunda possibilidade, chamada causalidade reversa: pessoas cuja insônia já é mais grave, muitas vezes por conta de um sistema cardiovascular já mais estressado, podem ser justamente as mais propensas a recorrer à melatonina de forma prolongada, o que inverteria a seta que a manchete sugere. Separar essas hipóteses com precisão é justamente o tipo de trabalho que os próximos estudos vão precisar fazer — normalmente por meio de ajustes estatísticos que tentam isolar o efeito da melatonina do efeito da gravidade da insônia, comparando pacientes com quadros clínicos parecidos, ou acompanhando os mesmos indivíduos por mais tempo para ver se o risco muda conforme a dose e o tempo de uso variam.
Melatonina não é um sedativo — é um sinal do relógio biológico
Boa parte da confusão em torno da melatonina vem de um mal-entendido básico sobre o que ela faz no corpo. A melatonina é um hormônio produzido naturalmente pela glândula pineal, no cérebro, e sua liberação é regulada pelo ciclo de luz e escuridão captado pelos olhos: quando escurece, a produção aumenta; quando há luz — inclusive a luz azul de telas de celular e computador — ela é suprimida. Ela age se ligando a receptores específicos (chamados MT1 e MT2) espalhados pelo cérebro e por outros tecidos do corpo, ajudando a sincronizar o relógio circadiano interno com o ciclo dia-noite externo. Ela não “desliga” o cérebro como um sedativo faz — sua função real é sinalizar ao corpo que é hora de se preparar para dormir, e não forçar a inconsciência. Vale notar também que a produção natural de melatonina tende a diminuir com a idade, o que é uma das razões pelas quais pessoas mais velhas relatam mais dificuldade para dormir e, consequentemente, recorrem mais ao suplemento. É por isso que a melatonina costuma funcionar bem para reorganizar o horário do sono, mas não necessariamente para “forçar” alguém a dormir contra a vontade do próprio corpo. Entender essa diferença muda a expectativa de uso: tomar melatonina esperando o efeito imediato de um remédio para dormir é, tecnicamente, pedir a ela algo que não é sua função original. Isso também explica por que algumas pessoas sentem pouco ou nenhum efeito com uma dose padrão enquanto outras acordam sonolentas no dia seguinte: o horário da dose em relação ao próprio ritmo circadiano, e a quantidade de luz ao redor desse momento, costumam pesar tanto quanto a quantidade tomada.
O rótulo do pote nem sempre bate com o que está dentro
Diferente de medicamentos com prescrição, a melatonina é vendida como suplemento alimentar em praticamente todo o mundo, incluindo o Brasil e os Estados Unidos, o que significa que ela não passa pelo mesmo nível de fiscalização rigorosa aplicado a remédios farmacêuticos antes de chegar às prateleiras — não há exigência, por exemplo, de que cada lote produzido seja testado de forma independente para confirmar que contém exatamente a dose declarada. Testes independentes já demonstraram repetidamente que a quantidade real de melatonina em muitos produtos comerciais diverge do que está escrito no rótulo — às vezes para menos, às vezes contendo bem mais do que o anunciado, e ocasionalmente com contaminantes que sequer aparecem na lista de ingredientes. Some a isso outro detalhe pouco discutido: muitos produtos no mercado contêm doses de melatonina de 3 a 10 vezes maiores do que as quantidades que estudos mostraram ser eficazes, geralmente na faixa de meio a alguns miligramas, enquanto cápsulas comerciais frequentemente chegam a 5, 10 ou até mais miligramas por dose. Isso significa que uma parcela relevante de quem usa o suplemento nem sabe exatamente quanto está tomando de fato, nem se essa dose é a mais indicada para o próprio caso — um detalhe que se torna ainda mais relevante à luz de qualquer pesquisa que tente relacionar dose e risco à saúde.
Jet lag por três dias e insônia por três anos são usos completamente diferentes
A maior parte da evidência científica sólida sobre melatonina se refere a usos pontuais e de curto prazo: ajustar o relógio biológico depois de uma viagem longa com mudança de fuso horário (o clássico jet lag), adaptar o corpo a um novo turno de trabalho, ou realinhar o ciclo de sono em quem tem atraso de fase do sono, uma condição mais comum em adolescentes e adultos jovens. Para esses casos, o hormônio tem um papel bem estabelecido e estudado, geralmente usado por poucos dias ou semanas até o relógio interno se realinhar. O uso diário, contínuo, por meses ou anos, como tratamento geral para insônia crônica, é uma história bem diferente — e muito menos estudada. Boa parte do consumo popular de melatonina hoje se encaixa nessa segunda categoria, um uso que a maioria dos especialistas em medicina do sono nunca recomendou originalmente como estratégia de longo prazo, simplesmente porque a pesquisa sobre segurança e eficácia nesse cenário específico ainda é escassa. Na prática, isso torna boa parte do uso diário e prolongado de melatonina algo tecnicamente “fora de bula”, ainda que socialmente tratado como um hábito tão inofensivo quanto tomar um chá antes de dormir. É justamente essa lacuna de conhecimento que o novo estudo de 2026 começa a preencher — e o resultado, mesmo preliminar, sugere que essa lacuna importava mais do que se pensava.
Efeitos colaterais já conhecidos versus a pergunta nova que ficou em aberto
Antes desse estudo, a melatonina já era considerada, de forma geral, razoavelmente segura para uso de curto prazo, com efeitos colaterais leves e bem documentados: sonolência residual pela manhã, dor de cabeça, tontura e sonhos mais vívidos ou intensos figuram entre os relatos mais comuns. O que já vinha gerando debate entre pesquisadores de sono, mesmo antes da notícia de 2026, era justamente a combinação de uso diário prolongado com doses frequentemente muito acima do que a pesquisa testou — um cenário em que simplesmente não existiam dados de segurança de longo prazo suficientes para tranquilizar ninguém completamente. O achado sobre insuficiência cardíaca não surge do nada: ele se soma a uma lista de perguntas que a comunidade científica já vinha fazendo sobre o que acontece no corpo depois de anos de exposição contínua a um hormônio que, naturalmente, o organismo regula sozinho em quantidades muito menores e por tempo limitado a cada noite.
O que os especialistas em sono colocam antes de qualquer suplemento: a CBT-I
Se o uso prolongado de melatonina não é o tratamento de primeira linha recomendado pelas sociedades de medicina do sono, o que é? A resposta consistente das diretrizes mais respeitadas é a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia, conhecida pela sigla CBT-I. Diferente de um remédio, a CBT-I trabalha diretamente os pensamentos e comportamentos que sustentam a insônia: identifica crenças ansiosas sobre o sono (“se eu não dormir 8 horas, amanhã será um desastre”), reestrutura a relação da pessoa com a cama e o quarto, e usa técnicas como restrição do tempo na cama e controle de estímulos para reconstruir uma associação saudável entre deitar e efetivamente dormir. Estudos comparativos mostram que a CBT-I costuma ser tão eficaz quanto medicamentos no curto prazo e mais eficaz no longo prazo, sem os riscos farmacológicos associados a uso prolongado de qualquer substância. Ela geralmente é conduzida por psicólogos ou terapeutas com treinamento específico, ao longo de algumas semanas, em consultório ou por meio de programas estruturados online, o que a torna mais acessível do que muita gente imagina.
Hábitos de sono que têm evidência real por trás
Ao lado da CBT-I, existe um conjunto de hábitos simples com evidência consistente por trás: manter horários fixos para dormir e acordar todos os dias, inclusive nos fins de semana; se expor à luz natural pela manhã, o que ajuda a calibrar o próprio relógio circadiano sem depender de suplemento externo; evitar cafeína depois do meio da tarde; reduzir cochilos longos durante o dia, que tendem a “roubar” pressão de sono da noite; e praticar o chamado controle de estímulos — usar a cama exclusivamente para dormir, e se levantar depois de cerca de 20 minutos sem conseguir pegar no sono, voltando só quando a sonolência realmente aparecer, em vez de ficar remoendo a frustração deitado. O ambiente do quarto também conta mais do que parece: bloquear luz externa e ruídos indesejados reduz despertares noturnos que muita gente nem percebe que está tendo. Um acessório simples como uma máscara de dormir combinada com protetores auriculares não substitui nenhuma dessas mudanças de comportamento, mas funciona como um complemento barato e imediato para quem já ajustou a rotina e ainda enfrenta luz de rua, parceiro com horário diferente ou vizinho barulhento — sem envolver nenhuma substância a mais entrando no corpo. Consistência costuma pesar mais do que qualquer ajuste isolado: a maioria desses hábitos leva de uma a duas semanas de prática constante até o efeito no sono ficar perceptível, um prazo maior do que a maioria das pessoas dá antes de desistir e recorrer a um suplemento.
Quem quiser entender de forma mais ampla o que costuma estar por trás de noites mal dormidas pode conferir nosso guia sobre causas da insônia e como melhorar o sono, que detalha gatilhos comuns e erros frequentes na hora de tentar resolver o problema sozinho.
Você toma melatonina todas as noites? O que fazer com essa notícia agora
Se você é alguém que usa melatonina há meses ou anos como parte da rotina de sono, a reação mais sensata não é parar de tomar de um dia para o outro por conta própria — suspender abruptamente um hábito de sono estabelecido, sem um plano, pode piorar a insônia no curto prazo e não é o que essa pesquisa está pedindo. O passo prático é conversar com um médico ou especialista em sono sobre o próprio histórico, levando perguntas concretas para a consulta. Algumas que valem a pena anotar antes de sair de casa:
- Há quanto tempo uso melatonina e em que dose exata (vale conferir o rótulo do produto específico)?
- Tenho outros fatores de risco cardiovascular, como pressão alta, colesterol elevado, diabetes ou histórico familiar de doença cardíaca?
- Faz sentido no meu caso investigar a CBT-I ou outra abordagem não medicamentosa para a insônia?
- Existe uma forma segura de reduzir a dose aos poucos, caso eu decida parar, em vez de interromper de uma vez?
Esse tipo de decisão é individual e depende de contexto de saúde que só um profissional consegue avaliar com precisão — este artigo não substitui essa conversa, apenas ajuda a chegar nela com mais informação e menos pânico. O estudo de 2026 é um alerta real que merece ser levado a sério, mas ainda é, pelas palavras dos próprios pesquisadores, um capítulo em aberto — não uma sentença final sobre um hormônio que o próprio corpo já produz todas as noites.
Quem gosta desse tipo de curiosidade também costuma curtir t-maxxing.
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Está lendo isso enquanto segura o pote de melatonina na mesa de cabeceira? Vale a pena guardar este artigo e levar as perguntas certas para a próxima consulta médica.
