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Por Luís Gustavo. Veja como pesquisamos e revisamos nosso conteúdo.
Todo mundo já acordou tentando reconstruir um sonho que parecia perfeitamente lógico enquanto acontecia e que, minutos depois, já não faz sentido nenhum. Apesar de ser uma experiência universal — todo ser humano sonha, mesmo quem não lembra — o sonho continua sendo um dos fenômenos mais estudados e menos totalmente explicados da neurociência. Estas curiosidades sobre sonhos reúnem descobertas de décadas de pesquisa do sono, do momento em que a ciência provou que sonhamos até por que certas pessoas enxergam sonhos em preto e branco.
1. Você sonha várias vezes por noite, mesmo sem lembrar
Pesquisas de laboratório do sono mostram que a maioria dos sonhos vívidos acontece durante o sono REM (do inglês *rapid eye movement*), uma fase que se repete de 4 a 6 vezes por noite em ciclos que vão ficando mais longos conforme a noite avança — o que significa que uma pessoa comum passa por várias “sessões” de sonho antes de acordar, mesmo lembrando de apenas uma ou nenhuma delas. A descoberta formal do sono REM aconteceu em 1953, no laboratório de Nathaniel Kleitman na Universidade de Chicago, quando o pesquisador Eugene Aserinsky notou movimentos oculares rápidos em voluntários adormecidos e associou o fenômeno a relatos de sonhos vívidos ao acordá-los nesse momento específico.
2. A maioria dos sonhos é esquecida em poucos minutos
Estudos de memória do sono indicam que até 95% do conteúdo de um sonho pode ser esquecido nos primeiros 5 a 10 minutos após acordar, a não ser que a pessoa registre ativamente o que lembra. A explicação mais aceita envolve a queda brusca de noradrenalina no cérebro durante o sono REM — um neurotransmissor importante para consolidar memórias de longo prazo — o que faz o cérebro registrar o sonho de forma muito mais frágil do que registraria um evento vivido acordado. É por isso que técnicas como manter um diário dos sonhos ao lado da cama, anotando qualquer fragmento assim que os olhos abrem, aumentam de forma mensurável a quantidade de conteúdo onírico lembrado ao longo do tempo.
3. Sonho lúcido é um estado que pesquisadores conseguem medir em laboratório
Sonho lúcido é quando a pessoa tem consciência de que está sonhando enquanto o sonho ainda acontece, às vezes conseguindo até influenciar o rumo da história. Por décadas isso foi tratado como relato subjetivo difícil de verificar, até que o pesquisador Stephen LaBerge, na Universidade Stanford, desenvolveu nos anos 1980 um protocolo em que voluntários treinados faziam movimentos oculares pré-combinados assim que percebiam estar sonhando — movimentos que os equipamentos de polissonografia conseguiam captar em tempo real, mesmo com o corpo paralisado pela atonia muscular típica do sono REM. Esse experimento deu à ciência a primeira confirmação objetiva de que o sonho lúcido é um estado neurológico real, e não só uma percepção subjetiva.
4. Outros animais também sonham, segundo estudos de atividade cerebral
Pesquisas com ratos conduzidas no MIT registraram padrões de atividade no hipocampo — a região cerebral ligada à memória espacial — durante o sono, que reproduziam quase exatamente os mesmos padrões registrados enquanto os ratos corriam por um labirinto horas antes, um fenômeno chamado “reativação de memória” (memory replay). Esse tipo de evidência, junto com observações comportamentais em cães e gatos que se mexem, vocalizam e mudam de expressão facial durante o sono, sugere fortemente que outros mamíferos também têm algum tipo de experiência onírica durante o sono REM, mesmo sem poderem descrever verbalmente o que “veem”.
5. Sonhar em preto e branco pode estar ligado à geração que você nasceu
Um estudo conduzido pelo filósofo cognitivo Eric Schwitzgebel, da Universidade da Califórnia, encontrou uma correlação curiosa: pessoas nascidas antes da popularização da TV colorida relatam sonhar em preto e branco com frequência bem maior do que gerações mais novas, que cresceram cercadas de imagens coloridas desde a infância. A hipótese mais discutida é que a experiência visual predominante na infância — se em preto e branco ou em cores — molda de alguma forma o “material bruto” que o cérebro usa para construir imagens durante o sono, embora os pesquisadores ainda debatam se essa é realmente a explicação completa do fenômeno.
6. Estímulos externos podem ser “incorporados” ao sonho em andamento
Já reparou que às vezes o som do despertador vira parte da história do sonho antes de você acordar de fato? Esse fenômeno, chamado incorporação de estímulo, foi documentado em experimentos de laboratório do sono em que pesquisadores aplicavam sons, luzes ou até borrifos leves de água em voluntários dormindo e depois perguntavam sobre o conteúdo do sonho ao acordá-los — em uma parcela significativa dos casos, o estímulo aparecia reinterpretado dentro da narrativa onírica (o som virava uma sirene, a água virava chuva), em vez de simplesmente acordar a pessoa na hora. Isso mostra que o cérebro continua processando informação sensorial do ambiente mesmo durante o sono, tentando encaixá-la na história que já estava sendo construída.
Por que sonhamos, afinal? A ciência ainda não tem resposta única
Apesar de tantas descobertas sobre o “como” do sonho, o “por quê” continua sendo debatido. Algumas teorias defendem que sonhar ajuda a consolidar memórias e processar emoções do dia; outras sugerem que é um subproduto neutro da atividade cerebral aleatória durante o sono REM, sem função evolutiva própria; e pesquisas mais recentes em neurociência computacional propõem que sonhar funciona como uma espécie de “treino” simulado do cérebro para lidar com situações imprevistas — parecido com o que redes neurais artificiais fazem ao treinar com dados sintéticos. Nenhuma dessas teorias é consenso absoluto hoje, o que faz do sonho um dos poucos fenômenos universais da experiência humana ainda sem explicação definitiva.
Quem se interessa por como a mente processa experiências também costuma gostar de entender os mecanismos por trás da procrastinação, outro comportamento mental estudado de perto pela psicologia.
Para registrar seus próprios sonhos antes que o cérebro os apague
Diário dos Sonhos com Guia de Interpretação — ter o caderno ao lado da cama facilita anotar fragmentos do sonho nos primeiros minutos após acordar, quando a lembrança ainda está fresca.
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Você costuma lembrar dos seus sonhos ou eles somem assim que você abre os olhos? Compartilhe este artigo com quem também tem curiosidade sobre o que acontece na mente enquanto dormimos.
